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Padre Eliano
Padre Eliano

"Na aridez espiritual, não se reza por vontade, mas por necessidade."

Mesmo aqueles que se dedicam diariamente a Deus e ao serviço à Igreja sentem, algumas vezes, falta de gosto pelas coisas do Senhor, solidão, desânimo... Todo esse sentimento, ou falta dele, é a vivência de uma aridez espiritual, uma privação das consolações sensíveis e espirituais, as quais facilitam a oração e a prática das virtudes.

Nesses momentos, apesar dos esforços, muitas pessoas não sentem gosto pela oração e experimentam certo cansaço e o tempo parece não ter fim. A fé e a esperança parecem adormecidas e a alma, privada de toda alegria, vive uma espécie de torpor. No entanto, o deserto espiritual, apesar de ser um estado extremamente penoso, também tem as suas utilidades.

Nesta entrevista, padre Eliano Luís Gonçalves, sacerdote há 3 anos e meio e confessor na Comunidade Canção Nova, explica o que causa essa secura espiritual nas pessoas, quais são as consequências de se sentirem afastadas de Deus e ensina como agir para que superem essa fase.
cancaonova.com: "Árido" significa algo seco, estéril, insensível. Quando o espírito das pessoas chega a esse ponto, como elas se sentem?


Padre Eliano: As pessoas se sentem vazias e experimentam, profundamente, uma ausência de Deus, porque foi tirado delas todo tipo de consolação. Então, elas fazem uma experiência de ausência de Deus.

cancaonova.com: O que causa esse estado nelas?

Padre Eliano: Pode ser o pecado que causa este sentimento no coração das pessoas, mas também uma provação da alma, a qual vai levá-las a um crescimento. Por isso, elas precisam reavaliar a sua vida e perceber o que está realmente acontecendo para produzir essa aridez, seja um pecado, algumas faltas ou uma provação que o próprio Senhor providencia para que elas possam crescer.

cancaonova.com: Podemos confundir desânimo e tristeza com esses momentos?

Padre Eliano: Podemos. Por isso, a pessoa precisa tomar muito cuidado nessas situações para que ela possa avaliar, realmente, o que está acontecendo no seu interior. Hoje, há uma tendência muito forte de se pensar que qualquer tristeza seja depressão. As pessoas precisam de auxílio também para identificar o que está acontecendo com elas.

cancaonova.com: Que riscos os cristãos podem correr afastando-se de Deus?

Padre Eliano: Se eles se afastam de Deus, vão experimentar um vazio e buscar, constantemente, a consolação de outras formas; no entanto, dessa forma, vão viver uma experiência muito triste e destruidora no seu interior.

cancaonova.com: Como a pessoa deve agir para se recuperar, voltar a ser feliz e ciente de Deus na vida dela?

Padre Eliano: Como a aridez provém, muitas vezes, dos pecados e das faltas, é preciso que a pessoa se examine com muita seriedade, mas também sem uma excessiva inquietação nem uma autocondenação, porque, quando necessitada, ela fica muito vazia e, por isso, pode também avaliar de forma errada o que está acontecendo dentro dela. Se ela não tem culpa desse estado, se não tem responsabilidade, deve fazer um exame para poder reavaliar a própria vida, pois, talvez, Deus esteja querendo purificá-la, santificá-la. Então, não pode haver desespero. É preciso que haja equilíbrio e tranquilidade, porque tudo passa nesta vida.

Na vida espiritual, não podemos nos acostumar a querer as coisas sempre do mesmo jeito, ainda mais neste contexto da Renovação Carismática, no qual as pessoas são muito voltadas para o sensível. Então, quando elas não sentem nenhuma consolação, elas se desesperam. Se elas estão divididas, é claro que vão experimentar um tempo de aridez para serem purificadas. Se alguém está vivendo num contexto de falsidade, é claro que precisa encontrar a causa dessa aridez, mas precisa também ser humilde e esforçar-se para poder eliminá-la com autenticidade.

 



cancaonova.com: Quais são as principais dificuldades encontradas na oração?

Padre Eliano: A maior dificuldade de uma vida de oração é perseverar até o fim sem deixar Deus e rezar mesmo que não se sinta vontade. As pessoas estão muito voltadas para este aspecto de que, na aridez, não se reza por vontade, mas por necessidade, porque, realmente, eu preciso encontrar-me com o Amado da minha alma e eu confio que Ele me ama e eu O amo profundamente. Quando alguém passa pela experiência da secura espiritual, precisa se desprender de tudo o quanto é criado; até mesmo da doçura que se encontra na piedade e na oração. É para a pessoa aprender a amar Deus por si só, por Ele mesmo, não porque Ele a consola, não porque pode dar algo a ela. Mas eu amo Deus e Ele me ama. Isso deve ser o suficiente para que a alma viva uma relação com Deus, uma bênção de gratuidade.

cancaonova.com: É possível que a aridez aconteça na vida de uma pessoa por vontade de Deus?

Padre Eliano: Sim, sem dúvida, para purificá-la e santificá-la, porque a oração contempla os seus estágios. Eu não posso pensar numa oração que possua, a todo instante, consolação ou sentimentos de realização. Eu posso pensar também numa oração que só alegre o coração de Deus, pois, muitas vezes, eu não tenho resposta, mas preciso confiar. Muitas vezes, passamos pela experiência da oração que vai consolar o coração de Deus e de não sermos mais consolados.

cancaonova.com: Monsenhor Jonas Abib fala que o estado de deserto espiritual nos ajuda na conquista da humildade. Isso significa que ela também pode ser positiva?

Padre Eliano: Sim, porque ela é providencial para nós. Ela quer produzir em nós a humildade, mostrando-nos que as consolações concedidas são favores essencialmente gratuitos de Deus e não méritos nossos, porque, muitas vezes, dizemos que rezamos para conseguir algo do Senhor. Não é pela sua oração que você consegue, mas porque Deus o ama e esse amor é gratuito. É o fruto da oração que produz em nós humildade, dependência divina e nos purifica tanto das nossas faltas passadas como das nossas afeições presentes.

Quando se tem que seguir Deus sem gosto, mas por convicção amorosa e uma vontade decidida, sofre-se muito. No entanto, esse sofrimento é expiatório e reparador. Então, ele nos enriquece e robustece na virtude para que nós continuemos a orar e a praticar o bem. É preciso que tenhamos esse exercício firme, decidido, constante da nossa vontade, porque, nele, a virtude vai sendo fortalecida em nós e Deus vai sendo, profundamente, o único Senhor. Não existe mais uma busca por si mesmo, existe uma busca por Deus e por aquilo que Ele é na nossa vida e na nossa história.

cancaonova.com: Qual a missão pastoral da Igreja diante daqueles que se sentem vazios da presença divina?

Padre Eliano: Primeiramente, um acolhimento, porque viver essa fase é muito difícil. A pessoa não se entende e não sabe o que está acontecendo com ela, porque experimenta uma perda de algo que ela considerava essencial. Mas, muitas vezes, as perdas são necessárias. Ela vai ganhar algo muito melhor e maior. Essa pessoa precisa ser acolhida, acompanhada, ajudada, para que, nessa fase que ela está vivendo, ela não desfaleça na fé. É por isso que a Igreja tem essa atitude de falar que nós precisamos sempre orar pedindo a graça da perseverança final.

cancaonova.com: Fale-nos do papel das consolações nessas ocasiões.

Padre Eliano: Se nós estamos falando de aridez (e esta retira as consolações), pode ser que a consolação seja dada para que a pessoa retome um pouco o ânimo e cresça, ou pode ser que ela não venha mesmo para que a pessoa faça a experiência de não viver mais em função dela [consolação]. As pessoas precisam aceitar que servir a Deus sem gosto e sentimento é mais digno e santificante do que fazê-lo com muita consolação. Basta querer amar a Deus para amá-Lo; enfim, o ato mais perfeito de amor é conformar a própria vontade com a vontade de Deus. A consolação vai ser dada se for necessária para que essa alma cresça.
É preciso unir-se a Jesus que, no Jardim das Oliveiras, dignou-se a sentir o tédio, a tristeza e a angústia suprema por amor a nós; e com Ele dizemos: “Seja feita a Tua vontade e não a minha”. O importante nessa fase da aridez é nunca perder o ânimo, não deixar os exercícios espirituais, não deixar a oração, não desanimar diante dos próprios esforços, mas ser firme na resolução de ser como o Mestre Jesus, que orou em todas as circunstâncias até o fim. Jesus é nosso modelo de homem perfeito. É n'Ele que encontramos a referência do eterno louvor dado ao Pai em todas as circunstâncias.

cancaonova.com: O senhor já se sentiu distante de Deus alguma vez?

Padre Eliano: Não como esse que nós estamos contemplando, porque a aridez é algo para santos, é um processo muito grande que vai acontecendo. Mas eu já vivi algumas situações na minha vida que eu senti que a consolação não existia e eu tive que perseverar baseado, pura e simplesmente, nas promessas de Deus. Mas sabemos que, na aridez, não podemos ficar vaidosos com a consolação nem perder o ânimo.

cancaonova.com: Que dicas pode dar para quem quer combater o mal em tempo de deserto espiritual?

Padre Eliano: Não se feche, porque o fechamento sempre nos mata; mas busque, primeiramente, ajuda e auxílio espiritual. As pessoas só procuram por ajuda quando estão no mais completo caos, daí querem resolver tudo em 10 minutos. Não é assim que se resolvem as coisas; vida espiritual é um crescimento e, quando vivenciamos essa fase, precisamos ter um acompanhamento, ter alguém que nos ajude. Boas leituras no âmbito espiritual também ajudam muito. A grande meta, nesse momento, é não deixar a oração, mesmo que você esteja na mais profunda aridez. Não reze por vontade, tome a decisão de rezar por necessidade. Tanto na vida espiritual como em outras situações, nós precisamos ter uma decisão firme de fazer o que nós precisamos. Abra o seu coração, queira se conhecer, amadurecer, queira crescer na fé e viver esse processo de crescimento já que o Reino de Deus é como uma semente de mostarda construído na paciência. Sem paciência não construímos nem alcançamos nada na vida; inclusive na nossa vida de santidade e na nossa busca da eternidade.

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02/02/2008

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