Fazendo retiro na vida O Retiro Popular é feito com um tempo diário de oração com a Bíblia: é a Leitura Orante da Palavra de Deus (“Lectio Divina”). Dentre tantas propostas de roteiro de Leitura Orante, a Conferência dos Religiosos do Brasil tem divulgado algumas magníficas, também aplicadas em outros lugares, como a que se segue, adaptada de um texto da Arquidiocese de Londrina, no Paraná: Dez pontos para orientar a leitura orante pessoal e diária da bíblia 1. Faça-se em mim segundo a Tua Palavra Iniciar invocando o Espírito Santo estudar; não vai ler a Bíblia para aumentar conhecimentos nem preparar algum trabalho apostólico; não vai ler para ter experiências extraordinárias. Vai ler a Palavra de Deus para escutar o que Deus lhe tem a dizer, para conhecer Sua Vontade e viver melhor o Evangelho de Jesus Cristo. Em você devem estar a pobreza e a disposição que o velho Eli recomendou a Samuel: “Fala, Senhor, que teu servo escuta!” (1Sm 3,10). Deve estar a mesma atitude obediente de Maria: “Faça-se em mim segundo a Tua Palavra” (Lc 1,38). 2. Pedir o Espírito Santo. “Pedi e recebereis” (Leitura lenta e atenta do texto) Escutar Deus não depende nem de você nem do esforço que fará, mas só e unicamente de Deus, da Sua decisão gratuita e soberana de entrar em contato com você e fazê-lo ouvir Sua voz. O ponto de partida da Leitura Orante deve ser a humildade – saber recolher-se a sua própria insignificância e dignidade. Para isso é necessário que você se prepare, vigiando em oração, pedindo que Ele mande Seu Espírito. Pois, sem a ajuda do Espírito de Deus, não é possível descobrir o sentido que a Palavra de Deus tem para nós hoje (Jo 14,26; 16,13; Lc 11,13). 3. Criar um ambiente de recolhimento (Leitura lenta e atenta do texto) É importante criar um ambiente adequado, que favoreça o recolhimento diante da Palavra de Deus. Ler a Bíblia é como visitar um amigo. As duas coisas exigem o máximo de atenção, respeito, amizade, entrega e escuta atenta. Para isso você deve aprender a cultivar o silêncio dentro de si, durante todo o tempo da Leitura Orante. E lembre-se: uma confortável e digna posição do corpo favorece o recolhimento da mente. 4. Receber a Bíblia como o Livro da Igreja (Observar bem o sentido de cada frase) Abrindo a Bíblia, você deve estar bem consciente de que está abrindo um livro que não é seu, mas da comunidade. Fazendo a Leitura Orante você está entrando no grande rio da Tradição da Igreja, que atravessa os séculos. A Leitura Orante é o barquinho que carrega você pelas curvas desse rio até o mar. O clarão luminoso que nos vem do mar já clareou a “noite escura” de muita gente. Mesmo fazendo sozinho a Leitura Orante da Bíblia, você não está só, mas unido aos irmãos que, antes de você, procuraram “meditar dia e noite na lei do Senhor” (Sl 1,3). São muitos! Por isso, permaneça firme naquilo que aprendeu e aceitou como certo. Você sabe de quem o aprendeu! (2Tm 3,14). E pode ter aprendido mesmo das pessoas que não sabiam ler o texto escrito: elas sabiam ler o texto da vida, dos acontecimentos, do rosto dos irmãos e das irmãs. Eucarístico). 5. Ter uma correta atitude interpretativa
diante da Bíblia
6. Colocar-se sob o julgamento da Palavra para
poder chegar à contemplação
7. Procurar, por todos os meios, que a
interpretação seja fiel
(Ler de novo, rezando o texto e respondendo a Deus) Para que sua Leitura Orante não se entregue só às conclusões de seus próprios sentimentos, pensamentos ou caprichos, mas tenha firmeza maior e seja realmente fiel, é importante você levar em conta três exigências fundamentais: Primeira exigência: o confronto com a fé da Igreja. Confronte sempre o resultado de sua Leitura Orante com a comunidade a que você pertence, com a fé da Igreja viva. Do contrário, pode acontecer que seu esforço não leve você a lugar algum (Gl 2,2). Segunda exigência: o confronto com a realidade. Confronte sempre aquilo que você lê na Bíblia com a realidade que vivemos. Quando a Leitura Orante não alcança seu objetivo em nossa vida, a causa nem sempre é falta de oração, falta de atenção à fé da Igreja ou falta de estudo do texto. Muitas vezes, é simplesmente falta de atenção à realidade que vivemos. Quem vive na superficialidade, sem aprofundar sua vida, não pode atingir a fonte de onde nasceram os Salmos. Terceira exigência: confrontar sempre as conclusões de sua Leitura com os resultados dos trabalhos dos estudiosos que investigam o sentido da Letra. A Leitura Orante – é verdade – não pode ficar parada na Letra, mas deve procurar o sentido do Espírito (2Cor 3,6). Mas querer estabelecer o sentido do Espírito sem fundamentá-lo na Letra é o mesmo que construir um castelo no ar (Santo Agostinho). É cair no engano do fundamentalismo. Hoje em dia, quando tantas idéias novas se propagam, é muito importante ter bom senso. O bom senso se alimenta do estudo da Letra. Para não errar nesse ponto, vale a pena seguir o exemplo do apóstolo Paulo. 8. Imitar o exemplo de São Paulo (Formular um compromisso de vida) O apóstolo dá vários conselhos de como ler a Bíblia. Ele mesmo foi um bom intérprete. Eis algumas das normas e atitudes recomendadas e observadas por ele: Considere-se destinatário do que está escrito, pois tudo foi escrito para a nossa instrução (1Cor 10,11; Rm 15,4); a Bíblia é o nosso livro; Procure ter nos olhos a fé em Jesus Cristo, pois é só pela fé nEle que o véu cai e que a Escritura revela seu sentido, nos comunicando a sabedoria que leva à salvação (2Cor 3,16; 2Tm 3,15; Rm 15,4); Lembre-se: Paulo falava de “Jesus Cristo Crucificado” (1Cor 2,2). “Escândalo para uns e loucura para outros”: foi esse Jesus que lhe abriu os olhos para perceber a Palavra viva em Corinto, onde a loucura e o escândalo da cruz estavam confundindo os sábios, os fortes e os que pensavam ser alguma coisa neste mundo (1Cor 1,21-31); Combine o eu e o nós: nunca só o eu, e nunca só o nós! O apóstolo fazia essa combinação, pois recebeu sua missão da comunidade de Antioquia e falava a partir dela (At 13,1-3; Gl 2,2); Tenha em mente os problemas de sua vida pessoal e familiar, das comunidades, da Igreja, do povo a que você pertence e serve; era assim que Paulo relia e entendia a Bíblia: a partir dos problemas das comunidades por ele fundadas (1Cor 10,1-13). 9. Descobrir na Bíblia o espelho do que vivemos hoje (Rezar um salmo apropriado) Ao ler a Bíblia, tenha bem presente que seu texto não é só uma janela por onde você olha para saber o que aconteceu com os outros no passado; é também um espelho, um “símbolo” (Hb 11,19), através do qual você olha para saber o que está acontecendo com você (1Cor 10,6-10). A Leitura Orante diária é como a chuva mansa que, aos poucos, vai fecundando o terreno (Is 55,10-11). Entrando em diálogo com Deus e meditando Sua Palavra, você cresce como árvore plantada à beira dos córregos (Sl 1,3). Você não vê o crescimento, mas percebe o resultado no encontro renovado consigo, com Deus e com os outros. Diz o canto: “É como a chuva que lava, é como o fogo que arrasa, Tua Palavra é assim; não passa por mim sem deixar um sinal”. 10. Interpretar a vida com a ajuda da Bíblia
(Escolher uma frase como resumo para memorizar) Quando você faz a Leitura Orante, o objetivo último não é interpretar a Bíblia, mas interpretar a vida. Não é conhecer o conteúdo do Livro Sagrado, mas, ajudado pela Palavra escrita, descobrir, assumir e celebrar a Palavra viva que Deus fala hoje em sua vida, em nossa vida, na realidade do mundo em que vivemos (Sl 95,7); é crescer na fé e, como o profeta Elias, experimentar, cada vez mais, que “Vivo é o Senhor, em cuja presença estou!” (1Rs 17,1; 16,15). |