Quinta semana da Quaresma Palavra de vida eterna Diante da morte, Jesus também experimentou o sentimento instintivo do medo. Mas, na profundidade de Seu ser, via na paixão um dom de amor com o qual respondia ao amor do Pai. Sua morte manifestou a glória divina que se difundiu pelo mundo. Sua entrega é modelo de vida para todos nós. Acolha esta Palavra, para transformá-la em gestos concretos nesta semana: “Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele fica só. Mas, se morre, produz muito fruto” (Jo 12,24). Queremos ver jesus Homens e mulheres têm percorrido, por toda a história da Igreja, os sulcos abertos pela Cruz nos campos do mundo. As sementes – grãos de trigo em forma de suor, entrega, generosidade, doação silenciosa, sangue – estão sendo lançadas. O mundo pertencerá, na realização plena de sua história, àqueles que mais amarem. Sabemos que os gestos mais profundos e significativos de amor estão escondidos, plantados na terra dos corações, destinados a frutificar em cem, sessenta ou trinta por um. Só no exame final, cujas perguntas conhecemos, virá à plena luz a força do amor misterioso que move o mundo: “Todas as vezes que fizestes isso a um destes pequenos, que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25,40). No Evangelho de São João 12,19, está escrito: “Estais vendo o que conseguis? Olhai, todos vão atrás dele”. Antes Jesus entrara em Jerusalém e fora acolhido pela multidão que aclamava “Bendito o que vem em nome do Senhor!”. Agora, os sinais realizados por Jesus atraem gente de longe, que quer ver Jesus. Dali para frente, as perguntas humanas sempre se dirigem Àquele que é Caminho, Verdade e Vida, mesmo quando são feitas no tantas vezes inconsciente desejo de acertar, quando as pessoas querem encontrar uma saída, sem saber dar um nome a sua busca. Realmente, todos os caminhos apontam para Ele, Alfa e Ômega, Princípio e Fim, Senhor e Juiz da História. Nossa parte é a daqueles que trazem em si muitas perguntas, pois entramos também pela porta dos estrangeiros, querendo ver Jesus. Certamente nos surpreendemos, tantas e tantas vezes, ao aprender dEle a lei da vida, que é a da Páscoa. Custa-nos aceitar a morte diária do egoísmo, para que a vida floresça. Mas essa é nossa estrada, de caminheiros que não podem parar. “Se dissermos: basta, estaremos perdidos” (Santo Agostinho). Nossa outra tarefa é a dos discípulos que, assim como Filipe e André, tendo encontrado Aquele que é Caminho, Verdade e Vida, encaminham as outras pessoas a Jesus. É a grande missão: evangelizar! “A Boa-Nova há de ser proclamada, antes de mais nada, pelo testemunho. Suponhamos um cristão ou punhado de cristãos que, no seio da comunidade humana em que vivem, manifestam a sua capacidade de compreensão e de acolhimento, a sua comunhão de vida e de destino com os demais, a sua solidariedade nos esforços de todos para tudo aquilo que é nobre e bom. Assim, eles irradiam, de um modo absolutamente simples e espontâneo, a sua fé em valores que estão para além dos valores correntes, e a sua esperança em qualquer coisa que se não vê e que não se seria capaz nem sequer de imaginar. Por força desse testemunho sem palavras, esses cristãos fazem aflorar, no coração daqueles que os vêem viver, perguntas indeclináveis: Por que é que eles são assim? Por que é que eles vivem daquela maneira? O que é, ou quem é, que os inspira? Por que é que eles estão conosco?” (Paulo VI, Evangelii nuntiandi, n. 21). As perguntas levarão as pessoas a Jesus, cujo mistério, o do grão de trigo, envolverá a todos. A verdade que desconcerta abre os horizontes para a humanidade, e os laços do amor misericordioso abraçarão judeus e gentios, homens e mulheres, todos um, no Cristo Senhor, até a Páscoa definitiva do Reino. Roteiro do retiro popular O quinto domingo da quaresma Dia 2 de abril Hoje é domingo Dentro de duas semanas, celebraremos a Páscoa. Neste domingo quaresmal, queremos encontrar de novo o sentido do Dia do Senhor, nossa Páscoa semanal, com o ensinamento de João Paulo II, no número 2 da carta Dies Domini: “A ressurreição de Jesus é o dado primordial sobre o qual se apóia a fé cristã (cf. 1Cor 15,14): estupenda realidade, captada plenamente à luz da fé, mas comprovada historicamente por aqueles que tiveram o privilégio de ver o Senhor ressuscitado; acontecimento admirável que não só se insere, de modo absolutamente singular, na história dos homens, mas que se coloca no centro do mistério do tempo. Com efeito, a Cristo pertence o tempo e a eternidade, como lembra o rito de preparação do círio pascal, na sugestiva liturgia da noite de Páscoa. Por isso, a Igreja, ao comemorar, não só uma vez ao ano mas em cada domingo, o dia da ressurreição de Cristo, deseja indicar a cada geração aquilo que constitui o eixo fundamental da história, ao qual fazem referência o mistério das origens e o do destino final do mundo.” Antes de sua oração de retiro, reze assim: Vem, Espírito Divino, vem, dom da SABEDORIA, faze-me descobrir na vida Teu sabor, Tua alegria. Vem, Espírito Divino, vem, ó dom do ENTENDIMENTO, conceder-me que repouse só em Ti meu pensamento. Vem, Espírito Divino, vem, e dá-me Teu CONSELHO, para que na vida eu siga os caminhos do Evangelho. Vem, Espírito Divino, vem, ó dom da FORTALEZA. Faze-me Tua testemunha neste mundo, com firmeza! Vem, Espírito Divino, vem, supremo dom da CIÊNCIA, trazer luz à minha mente e prestarme Tua assistência. Vem, Espírito Divino, vem, ó dom da PIEDADE, nesta altíssima virtude inflamar minha vontade. Vem, Espírito Divino, vem, dom do TEMOR DE DEUS, conceder-me com amor viver sempre rumo aos Céus. Faça sua leitura orante da palavra de Deus Quando descobrimos Deus como amor gratuito e misericordioso, tudo muda em nossa existência. Nosso coração é transformado, e a resposta ao amor se torna um chamado a viver o amor. É esse o fruto da Nova Aliança, da qual sentia necessidade o profeta Jeremias e que ele tinha coragem de anunciar. É essa a realidade vivida por Jesus. Então também nossa morte se transformará em fonte de vida. A partir de uma das leituras propostas pela Igreja para este domingo, faça sua oração de retiro: Jr 31,31-34; Hb 5,7-9; Jo 12,20-33. Para concluir, reze assim:
Caridade em ação A última semana da Quaresma chega com uma proposta, que é a participação na Coleta da Campanha da Fraternidade, a ser realizada em todas as Igrejas do Brasil no Domingo de Ramos. Cada diocese aplicará a parte que lhe cabe no serviço aos mais pobres, especialmente às pessoas portadoras de deficiência. E a parte da coleta que será enviada à CNBB será destinada a projetos do Fundo Nacional de Solidariedade, administrado pela Caritas. Deus, rico em misericórdia Durante toda a Quaresma, nosso Retiro Popular propôs leituras espirituais da encíclica sobre a misericórdia. Que tais leituras sirvam para que você “tome gosto” pelos documentos da Igreja, lendo-os e descobrindo neles uma preciosa fonte de formação. Para esta semana, aqui está o texto, carregado de Sabedoria, de João Paulo II, no número 13 da Dives in misericordia: “A Igreja deve professar e proclamar a misericórdia divina em toda a sua verdade, tal como nos é transmitida pela Revelação. Na vida quotidiana da Igreja a verdade sobre a misericórdia de Deus, expressa na Bíblia, repercute-se como eco perene em numerosas leituras da Liturgia. E o autêntico sentido da fé do Povo de Deus percebe-a bem, como atestam várias expressões da piedade pessoal e comunitária [...] Há teólogos que afirmam ser a misericórdia o maior dos atributos e perfeições de Deus; e a Bíblia, a Tradição e toda a vida de fé do Povo de Deus oferecem-nos testemunhos inesgotáveis. Não se trata aqui da perfeição da imperscrutável essência de Deus no mistério da própria divindade, mas da perfeição e do atributo, graças aos quais o homem, na verdade íntima da sua existência, se encontra com maior intimidade e maior freqüência em relação autêntica com o Deus vivo. De acordo com as palavras que Cristo dirigiu a Filipe, ‘a visão do Pai’ – visão de Deus mediante a fé – tem precisamente no encontro com a sua misericórdia um momento singular de simplicidade e verdade interior, como aquele que nos é dado ver na parábola do filho pródigo. Quem me vê, vê o Pai. A Igreja professa a misericórdia de Deus, a Igreja vive dela na sua vasta experiência de fé e também no seu ensino, contemplando constantemente a Cristo, concentrando-se nEle, na Sua vida e no Seu Evangelho, na Sua Cruz e Ressurreição, enfim, em todo o Seu mistério. Tudo isso, que forma a ‘visão’ de Cristo na fé viva e no ensino da Igreja, aproxima-nos da ‘visão do Pai’ na santidade da Sua misericórdia. A Igreja parece professar de modo particular a misericórdia de Deus e venerá-la, voltando-se para o Coração de Cristo. De fato, a aproximação de Cristo, no mistério do Seu Coração, permite-nos deter-nos nesse ponto da revelação do amor misericordioso do Pai, que constituiu, em certo sentido, o núcleo central – e, ao mesmo tempo, o mais acessível no plano humano – da missão messiânica do Filho do Homem. A Igreja vive vida autêntica quando professa e proclama a misericórdia, o mais admirável atributo do Criador e do Redentor, e quando aproxima os homens das fontes da misericórdia do Salvador, das quais ela é depositária e dispensadora. Nesse contexto, assumem grande significado a meditação constante da Palavra de Deus e, sobretudo, a participação consciente e refletida na Eucaristia e no sacramento da Penitência ou Reconciliação. A Eucaristia aproxima-nos sempre do amor que é mais forte do que a morte. Com efeito, todas as vezes que comemos deste Pão e bebemos deste Cálice, não só anunciamos a morte do Redentor, mas proclamamos também a Sua ressurreição, enquanto esperamos a Sua vinda gloriosa. A própria ação eucarística, celebrada em memória dAquele que na Sua missão messiânica nos revelou o Pai por meio da Palavra e da Cruz, atesta o inexaurível amor, em força do qual Ele deseja sempre unir-se e como que tornar-se uma só coisa conosco, vindo ao encontro de todos os corações humanos. O sacramento da Penitência aplaina o caminho a cada um dos homens, mesmo quando sobrecarregados com graves culpas. Nesse Sacramento todos os homens podem experimentar de modo singular a misericórdia, isto é, aquele amor que é mais forte do que o pecado [...] Porque existe o pecado no mundo, neste mundo que Deus amou tanto que lhe deu o Seu Filho unigênito. Deus, que é amor, não Se pode revelar de outro modo a não ser como misericórdia, a qual corresponde não somente à verdade mais profunda daquele amor que Deus é, mas ainda a toda a verdade interior do homem e do mundo, sua pátria temporária. A misericórdia em si mesma, como perfeição de Deus infinito, é também infinita. Infinita, portanto, e inexaurível é a prontidão do Pai em acolher os filhos pródigos que voltam à Sua casa. São infinitas também a prontidão e a força do perdão que brotam continuamente do admirável valor do Sacrifício do Filho. Nenhum pecado humano prevalece sobre essa força e nem sequer a limita. Da parte do homem pode limitá-la somente a falta de boa vontade, a falta de prontidão na conversão e na penitência, isto é, o permanecer na obstinação, que está em oposição com a graça e a verdade, especialmente diante do testemunho da cruz e da ressurreição de Cristo.” A quinta semana da quaresma Para iniciar, reze a oração do Projeto Nacional de Evangelização:
Leitura orante da palavra de Deus Estamos na última semana da Quaresma, mas não queremos abandonar o método de oração com a Bíblia. Viva bem esta última semana de nosso retiro quaresmal e aproveite o roteiro para seu contato diário com a Palavra de Deus. Esse é um método tão antigo quanto novo de oração, que pode renovar seu modo de rezar. Para cada dia da quinta semana da Quaresma, escolha um dos textos propostos pela Igreja. Dia 3 de abril, segunda-feira: 1a leitura: Dn 13,1-9.15-17.19-30.33-62; Evangelho: Jo 8,1-11. A armadilha que querem preparar para Jesus parece perfeita: uma mulher apanhada em adultério, a lei que era claríssima em tais situações! Mas, com uma só palavra, Jesus desmascara a maldade que se esconde nos apelos à lei: uma vontade perversa de destruir. Em outras palavras, permite que uma mulher condenada volte à vida, na plena luz: “Vai e não peques mais!”. Dia 4 de abril, terça-feira: 1a leitura: Nm 21,4-9; Evangelho: Jo 8,21-30. “Irmãos, que ninguém ouse dizer que não faz parte deste mundo! Homem, quem quer que sejas tu, és do mundo. Se o mundo te corrompe, és lama e sujeira. Se o mundo não te encanta mais com o seu fascínio, então estás limpo. Frágil como és, o mundo ainda te atrai! Venha então habitar em ti Aquele que purifica. Mas, se estás purificado, não ficarás ‘neste mundo’ e não ouvirás ‘morrereis nos vossos pecados’. Todos nascemos no pecado e a esse pecado acrescentamos outros. Onde estaríamos, se não tivesse vindo a este mundo Aquele que é sem pecado para cancelar o pecado do mundo?” (Santo Agostinho). Dia 5 de abril, quarta-feira: 1a leitura: Dn 3,14-20.24-25.28; Evangelho: Jo 8,31-42. Liberdade! Palavra que parece mágica. Que partido político ou movimento social não levanta essa bandeira? Mas o que é a liberdade? Existe uma liberdade rasteira, própria de quem se deixa guiar por seus instintos e não admite qualquer regra como obstáculo a sua busca pelos prazeres. Essa liberdade rejeita os outros e o mundo, a não ser que representem oportunidades de satisfação. Mas existe também a liberdade das alturas. Quem a encontra, percebe-a ao mesmo tempo como resultado de seu esforço pessoal e como um dom. Muito rara, ela é a reserva interior que permite enfrentar, de cabeça erguida, todos os obstáculos e a própria morte. Essa é a liberdade à qual nos quer levar Jesus. Aquele que é a Verdade nos torna livres! Dia 6 de abril, quinta-feira: 1a leitura: Gn 17,3-9; Evangelho: Jo 8,51-59. É até fácil dizer que se crê em Jesus. Mas a pergunta “Quem é Jesus?” é sempre inquietante para quem toma consciência de quão desconcertante é Sua personalidade. Cuidado para não julgarmos precipitadamente aqueles que não O aceitam, pensando que já estamos plenamente alinhados com quem O reconhece como Filho de Deus. Deixemo-nos incomodar pelas palavras da liturgia de hoje! É condição para confessarmos, na Verdade, o Senhor como Verdadeiro Deus e Verdadeiro Homem. Dia 7 de abril, sexta-feira: 1a leitura: Jr 20,10-13; Evangelho: Jo 10,31-42. Os adversários de Jesus compreenderam toda a força de Suas afirmações: Ele proclama que é Deus! Para tais adversários, essa é uma pretensão inaceitável! Nenhuma das obras que Ele faz parece ser suficiente para convencê-los a nEle confiar. Em seus corações, o escândalo é total. A partir do momento em que se recusam a pôr em questão sua própria visão a respeito de Deus, não podem senão condenar Jesus. Mas, ao mesmo tempo, segundo observa São João, muitos creram nEle! Dia 8 de abril, sábado: 1a leitura: Ez 37,21- 28; Evangelho: Jo 11,45-56. Foi decidida a condenação de Jesus. Para Seus adversários, é a condição necessária para restabelecer a ordem das coisas. Não se dão conta de que com isso, na realidade, fazem vir à tona o caráter contraditório de seu próprio mundo, marcado pelo fechamento do coração, pelo orgulho e pela violência. Sim, a ordem será restabelecida depois da morte de Jesus, mas não a ordem por eles desejada! Para concluir sua oração diária no retiro popular, reze ou cante com a Virgem Maria o Magnificat :
Semana santa Completou-se nosso tempo de retiro, no qual caminhamos com a Igreja rumo à Páscoa. Acompanharam-nos durante este período o jejum, a esmola e a oração – as três práticas que nos foram recomendadas na Quarta-feira de Cinzas. Aprendemos de novo e mais ainda a rezar com a Bíblia e a partir da Bíblia. Estivemos junto Àquele que é Caminho, Verdade e Vida e O descobrimos em Seu amor misericordioso. Resta-nos agora, a partir do Domingo de Ramos, entrar com Cristo em Jerusalém, para celebrar a Páscoa. Que os participantes do Retiro Popular encontrem o sentido de todo o caminho feito na Vigília Pascal quando renovarem, juntamente com a Comunidade Paroquial, os compromissos batismais. A vela que você preparará para cada um dos membros de sua família será o sinal de que todos querem perseverar na fé, passando com Cristo da morte à vida! Santa Páscoa para toda a sua família. Dom Alberto Taveira Corrêa Arcebispo Metropolitano de Palmas |