Missa do reconhecimento na Basílica de São Paulo, Presidida por Dom Cláudio
Meus irmãos e minhas irmãs, quero saudar, particularmente, meus irmãos bispos. Meus caríssimos padres e diáconos, com os quais tenho uma ligação muito especial por causa da Congregação para o Clero, alegro-me de concelebrar com vocês. Também aos amigos da Comunidade Canção Nova e todos que vieram a esta celebração, mas em especial, quero saudar o monsenhor Jonas Abib, fundador de vocês. Ele está muito contente hoje, nós todos o sabemos. E, junto com ele, queremos louvar a Deus, de coração alegre, festivo e com todo o carisma que vocês [Canção Nova] tem, e celebrar esta Missa em ação de graças pelo Reconhecimento Pontifício da Canção Nova. Saúdo as autoridades.
Estamos aqui na grande Basílica de São Paulo Fora dos Muros. São Paulo está enterrado aqui, foi martirizado aqui perto; o grande apóstolo, o grande evangelizador, aquele que levou o Cristianismo para todo o mundo conhecido naquela época. São Paulo, quem sempre nos emociona e nos inspira, nos empurra para a missão. Ele que dizia “Ai de mim, se eu não evangelizar”, deu a sua vida por sisso. E essa Basílica é considerada a mais bela das quatro Basílicas de Roma.
Nesse Ano Paulino, em que toda a Igreja quer, de novo, inspirar, animar e encorajar para ir em missão, para pregar a Palavra de Deus a todas as criaturas, mas, de modo especial, aos seres humanos. Pregá-la, de novo, àqueles que foram batizados, mas não foram suficientemente evangelizados e, por isso, não participam da comunidade eclesial; também de todos aqueles que jamais foram batizados ou evangelizados. A todos eles São Paulo nos convida; na verdade, é o Espírito Santo quem faz isso. Ele que é a alma de toda missão, de toda evangelização.
Nós ouvimos Jesus Cristo dizendo, no Evangelho, a todos os apóstolos: “Ide ao mundo inteiro a pregar o Evangelho a toda criatura”. Vocês estão sendo aprovados pelo Papa, mas com esta conotação muito forte de que vocês são um dom para a Igreja Universal; não somente para o Brasil.
O campo de trabalho de vocês é o mundo inteiro. Monsenhor Jonas, a Igreja, hoje, põe, de modo oficial, como campo de trabalho e vivência do Evangelho, a essa comunidade, o mundo inteiro. Portanto, isso não é apenas um ponto de chegada, mas, sobretudo, um ponto de partida para vocês, para todo mundo. Nós já tivemos a alegria de ver outra comunidade do Brasil que foi aprovada no ano passado, a Shalon. Outras, provavelmente, virão. O Papa está, portanto, olhando para essa iniciativa do Espírito Santo de inspirar homens e mulheres, no nosso Brasil, para se associarem em grandes comunidades com aquele propósito tão firme e forte de querer viver o Evangelho plenamente, também com os carismas extraordinários que, muitas vezes, são dados não a todos –nem será dado a todos –, mas se alguém não recebeu um carisma extraordinário, nem por isso é menos transformado e renovado pelo Espírito Santo. Não se considere como alguém que ainda não chegou, porque o Espírito Santo dá esse dom a alguns para o bem de todos, para o bem da Igreja; não para honrá-los ou para fazê-los maiores do que os outros, mas para que estejam a serviço da Igreja e do bem de todos.
O Espírito Santo está realizando essas maravilhas no Brasil e no mundo todo. Quantas comunidades novas, no mundo, suscitadas pelo Espírito Santo e os papas que estão se pronunciando. Sempre me lembro, porque me impressionou muito, a Vigília de Pentecostes de 1998. Eu estava em Roma por outros motivos e tinha ouvido que o Papa se reuniria com as novas comunidades e os movimentos na Praça de São Pedro (….) foi algo impressionante. O Papa dizia: “Vocês são testemunhas do batismo no Espírito Santo. Fui até lá também e vi algo impressionante. Ele dizia: “Aqui, vocês são testemunhas da efusão do Espírito Santo sobre os nossos tempos. Aquilo que o Conselho e implorava, que houvesse um novo Pentecostes, está acontecendo aqui de novo, dizia João Paulo II. Ele pedia que o Espírito Santo descesse mais uma vez sobre todos e sobre toda a Igreja; ele queria estimular esses movimentos todos a estarem muito juntos com a Igreja e se identificarem muito com ela. Em nome dessa Igreja, ir pelo mundo afora em missão. O Papa dizia que esses novos movimentos e comunidades trouxeram um grande impulso missionário; não apenas impulsionando uns aos outros, mas eles mesmos indo em missão. Não apenas cuidando de si mesmos, num círculo fechado, porque sabemos que, quando vivemos num círculo fechado, um “probleminha” vira um “problemão”. Mas quando nos interessamos pelos outros para levar o Evangelho a eles e conduzi-los a Jesus Cristo, os nossos problemas desaparecem, porque a missão naõ cria problemas, ela os resolve. No entanto, é preciso decidir-se a não olhar para si mesmo, mas para esse grande mundo que Jesus Cristo quer salvar. Ele precisa dos nossos pés, da nossa voz; Ele precisa de nós. É claro que Ele, espiritualmente, trabalha os coração humanos, mas São Paulo já dizia que a fé nasce da pregação. Mas como vão crer, se não há quem lhes pregue?
Hoje, vocês estão, na verdade, retomando, com maior vigor; partindo, de novo, recomeçando uma grande missão universal. Isso vai dar força e saúde ao padre Jonas. Por isso, vamos celebrar, com muita alegria, com essa forte intensão de, realmente, recomeçar. São Francisco de Assis, no fim de sua vida, dizia: “Ainda não fiz nada, tenho que começar de novo”. Não devemos ficar olhando para aquilo que foi feito.
Vocês, meus caros, sejam perseverantes no seu carisma inicial, não o percam. Sejam sempre renovados nesse carisma, porque é ele que dá identidade a vocês, os mantêm fortes e unidos, e outros se agregando, porque vocês são fiéis ao carisma inicial. Essa experiência do Espírito Santo, essa forte experiência de Deus, esse espírito que leva vocês ao encontro forte e pessoal com Jesus Cristo e, depois, comunitário, que transforma vocês em discípulos e discípulas de Jesus Cristo, porque é nesse encontro que nós somos transformados. Ele nos transforma na medida em quem somos capazes de abrir o nosso coração no encontro que fazemos com Ele. Não se prendam apenas às obras, elas são importantes, mas deve nascer de algo que está dentro de cada um, dentro da comunidade, porque essa experiência de Jesus Cristo também deve ser comunitária. A comunidade tem de fazer a experiência, tem que levantar o grito de sua fé, a oração da sua fé. Essa oração carismática que vocês renovaram, não a percam, não percam esses valores. A leitura da Bíblia, da Palavra de Deus, sobre a qual foi realizado um Sínido que veio ao encontro de vocês. Essa leitura orante da Palavra, que sempre nos faz, de novo, encontrar com Jesus Cristo. Aquele que é verdadeiro discípulo, sente-se estimulado na missão e ele quer levar aos outros, contar a eles o que ele viveu. Esse Evangelho de Jesus Cristo é algo concreto na nossa vida, não apenas uma teoria, u livro, uma doutrina. É alguém que nós encontramos e queremos levar outras pessoas a encontrá-lO, que é Deus, que é Jesus Cristo, o Pai.
Lembro-me sempre daquela palavra do Papa João Paulo II aos jovens no Jubileu do ano 2000, aqui em Roma: “Vocês que vieram a Roma, o que vieram buscar?” Aí, ele papou e disse: “Não, a quem vocês vieram buscar? A quem vieram encontrar?” Para, imediatamente, explicar que não era ele [o Papa] que eles queriam encontrar. O Papa queria conduzi-los a esse alguém: a Jesus Cristo. Esse é Aquele pelo qual os jovens deviam vir a Roma, para encontrar Jesus Cristo.
O papa atual sempre diz, de novo, que o Cristianismo não nasceu de uma bela idéia, não é um livro, nem apenas um código de ética ou moral, embora tudo isso seja importante. O Cristianismo nasceu do encontro com alguém: Jesus Cristo. É Ele quem nos dá a essência do Cristianismo. Por isso, precisamos sempre, renovar esse encontro pessoal e comunitário com Jesus Cristo na força do Espírito Santo para, depois, ir em missão e levar a outros essa mesma experiência que vocês fazem.
Vocês que trabalham com a comunicação, quero lhes dizer, de modo especial, o quanto, hoje, a Igreja precisa de vocês. Claro que a Canção Nova não faz apenas comunicação; ela tem toda uma vida, toda uma iniciativa de evangelização missionária e de vivência de cada um, de santificação própria e comanitária, mas a comunicação tornou-se algo que marca muito vocês e a Igreja precisa muito disso. Ela precisa saber como levar Jesus Cristo também pelos meios de comunicação social: TV, Rádio e Internet. Que vocês também vejam nisso uma grande possibilidade, uma grande alternativa; embora saibamos que o encontro pessoal é que é decisivo. Contar a alguém a minha experiência com Jesus Cristo é muito mais forte do que qualquer outra coisa. Hoje, o Brasil, junto com toda a América Latina, está começando uma missão continental… e como é dificil organizar-se e sair em busca das pessoas, visitá-las, conversar com elas, escutá-las, evangelizá-las, conduzi-las a Jesus Cristo. Estamos tão acostumados a receber aqueles que vêm às nossas comunidades, mas não basta mais, é preciso sair em busca daqueles que não vêm. A Europa sabe disso mais do que nós; ela, dolorosamente, sabe disso. E como isso é triste!
A América Latina se decidiu, na V Conferência, a fazê-lo, porque vocês nos ajudaram muito. Os novos movimentos foram buscar as pessoas, mas vocês devem continuar a fazê-los junto com a paróquia, junto com seus bispos nessa comunhão eclesial. Vocês devem ser uma força, uma inspiração, sempre reelaborada em cada diocese, em cada paróquia para que todas as pessoas possam participar. A Igreja precisa de vocês.
Cardeal Cláudio Hummes